Finanças
Do mercado ao dia a dia: como o choque de 26 de outubro chega à economia real
Real 10% mais fraco soma cerca de 1 ponto à inflação em 12 meses, pelo Banco Central; juro futuro maior encarece o crédito longo e adia investimento e consumo.
· Gustavo B. Vargas
O pregão de 26 de outubro de 2026 teve a maior queda da bolsa desde 2020, alta de cerca de 8% no dólar e salto de mais de dois pontos percentuais nos juros longos. O efeito não fica no mercado financeiro: chega à economia real e ao orçamento das famílias por três canais, os preços, o crédito e a atividade.
Preços. Pelas estimativas do Banco Central, uma desvalorização de 10% do real, se mantida, acrescenta cerca de 1 ponto percentual à inflação em 12 meses. O repasse é maior na alimentação no domicílio, porque trigo, milho, soja e fertilizantes têm preço em dólar, e é relevante também nos bens industriais. Nos serviços, fica próximo de zero.
Crédito. O juro futuro é a base de custo dos empréstimos de prazo mais longo. Financiamento de veículo, crédito pessoal prefixado e capital de giro tendem a ficar mais caros nas semanas seguintes, mesmo antes de qualquer decisão sobre a Selic. O Copom se reúne em 3 e 4 de novembro de 2026.
Atividade. Com capital mais caro e incerteza maior, empresas adiam investimento e contratação, e famílias adiam compras de valor alto. Foi essa expectativa que derrubou com mais força os índices de consumo e imobiliário no pregão de 26 de outubro.
Na empresa, o efeito aparece nas premissas. O orçamento feito com o câmbio e os juros da semana anterior, os contratos indexados ao dólar ou ao CDI e a dívida pós-fixada passam a ter outra conta. A empresa que mantém análise de sensibilidade dessas variáveis consegue medir quanto o resultado do ano mudou.
O tamanho do efeito depende de quanto desse movimento se mantiver. As variáveis a acompanhar são o câmbio médio do mês, a curva de juros e a decisão do Copom.
Este texto é análise técnica, sem posição política, e não constitui recomendação de investimento. As estimativas de repasse do Banco Central têm intervalos de confiança amplos. As opiniões são pessoais e não representam posição das organizações em que atuo.
Fontes
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Política Monetária, março de 2026, boxe "Repasse cambial: estimativas por projeções locais" (coeficiente de 0,10 em 12 meses e 0,16 em 24 meses; 0,26 na alimentação no domicílio em 12 meses; serviços próximos de zero). https://www.bcb.gov.br/content/ri/relatorioinflacao/202603/rpm202603b8p.pdf
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Calendário de reuniões do Copom de 2026 (reunião de 3 e 4 de novembro). https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/calendarioreunioescopom
CNN BRASIL. Dólar sobe 8% e Bolsa tem maior queda desde a pandemia após vitória de Lula, 26/10/2026 (dados do pregão: Ibovespa −13,88%, dólar +8%, DI janeiro de 2031 de 12,642% para 15,185%, índices de consumo e imobiliário). https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/mercado/mercado-financeiro-ibovespa-dolar-26-outubro-2026/