Finanças
O custo da construção em 2026 não é um problema de material. É um problema de gente
· Gustavo B. Vargas
Entre janeiro e julho de 2026, o custo da mão de obra na construção civil em Minas Gerais subiu 12,84%. O material subiu 3,61%. A inflação oficial, 3,5%.
Esse é o dado que deveria estar no centro de qualquer conversa sobre orçamento de obra neste ano. Não a taxa de juros, não o preço do aço, não o câmbio. O trabalho.
Os números são do Sinduscon-MG. O Custo Unitário Básico (CUB/m²) do projeto-padrão R8-N em Minas Gerais saiu de R$ 2.354,47/m² em janeiro para R$ 2.548,75/m² em julho, uma alta acumulada de 8,25% em sete meses, praticamente o dobro do IPCA do período. E a decomposição desse avanço é assimétrica: a mão de obra correu cerca de 3,6 vezes mais rápido que os materiais.
O movimento não é local. No INCC-M da FGV, que cobre sete capitais, o índice de mão de obra variou 0,93% em julho, enquanto materiais e equipamentos ficaram em 0,42%. O acumulado em 12 meses do INCC-M chegou a 6,56% em agosto. Onde há desaceleração de custo, ela vem do material. Onde há pressão, ela vem da folha.
Por que o custo sobe mesmo com a obra desacelerando
A explicação está fora do canteiro. O Brasil opera próximo do pleno emprego: a PNAD Contínua divulgada em 27 de agosto mostra desocupação de 5,3% no trimestre encerrado em julho e população ocupada em 103,3 milhões de pessoas, o maior contingente desde o início da série, em 2012. Nesse ambiente, a construção não negocia salário contra seus pares de setor. Negocia contra toda a economia.
Dentro do próprio setor, há um segundo movimento. No primeiro semestre, a construção abriu 168.962 vagas formais, mas, pela primeira vez desde o início da série do Novo Caged, em 2020, Obras de Infraestrutura superaram Construção de Edifícios: 64.793 postos (+30,26%) contra 60.552 de edificações (-2,19%). O mesmo eletricista, o mesmo soldador, o mesmo encarregado de estrutura que uma incorporadora quer contratar em Belo Horizonte está sendo disputado por um canteiro de infraestrutura com orçamento de outra natureza. Infraestrutura não compete apenas por capital. Compete por gente.
Seria confortável supor que a desaceleração da atividade aliviaria essa pressão. Não é o que os dados mostram. A CNI acompanha o setor com índices que vão de 0 a 100, nos quais 50 é a linha de estabilidade: acima disso, o indicador está crescendo em relação ao mês anterior; abaixo, encolhendo. Em agosto, a atividade da construção marcou 47,2 pontos, ou seja, obra andando mais devagar. Os canteiros operaram com 66% da capacidade, dois pontos percentuais a menos que um ano atrás.
O emprego, porém, não caiu no mesmo ritmo: o índice subiu para 48,3 pontos, acima da média histórica para o período. A CNI atribui o descompasso ao tempo natural de resposta do emprego depois de um longo período de mercado aquecido. Na prática de canteiro, há um segundo motivo: recompor equipe qualificada hoje custa mais caro e demora mais do que segurá-la. Não por acaso, falta ou alto custo de trabalhador qualificado é frequentemente apontado como um dos principais problemas do setor.
O resultado é o pior arranjo possível para a margem: menos obra rodando e trabalho cada vez mais caro. Isso significa uma escassez estrutural de qualificação convivendo com um mercado de trabalho apertado. E a consequência prática: reduzir ritmo não devolve resultado, porque o custo unitário do que segue em execução continua subindo.
Quatro implicações para quem gere contrato e margem
1. Indexador não é hedge. Um contrato reajustado por INCC ou IGP-M não neutraliza um CUB cuja mão de obra corre a 12,84%. Os índices caminham juntos, mas o que interessa é o gap da correlação entre eles. Ele é o sinal de alerta e precisa ser medido contrato a contrato.
2. Orçamento precisa voltar a olhar produtividade, não só preço unitário. Homem-hora por m², retrabalho, tempo de improdutividade e curva de aprendizado de equipe nova viraram variável de resultado.
3. Retenção passou a ser mais barata que reposição. Em um mercado com 5,3% de desemprego, o custo de perder um encarregado experiente não é o salário do substituto: é o prazo.
4. Industrialização deixou de ser tese e virou realidade. Pré-fabricação, sistemas construtivos racionalizados e planejamento integrado reduzem exposição justamente ao insumo que mais encarece. Quando material desacelera e mão de obra acelera, todo m² transferido do canteiro para a fábrica muda o perfil de risco do empreendimento.
Fontes
Sinduscon-MG. CUB/m² de julho de 2026 (R8-N: R$ 2.354,47/m² em janeiro e R$ 2.548,75/m² em julho; alta de 8,25% no ano; mão de obra +12,84%; materiais +3,61%; inflação oficial de 3,5% no período), conforme Diário do Comércio, 08/08/2026. https://diariodocomercio.com.br/?p=616225
FGV IBRE. INCC-M de julho de 2026 (mão de obra 0,93%; materiais e equipamentos 0,42%) e de agosto de 2026 (6,56% em 12 meses), boletins reproduzidos pelo Sinduscon-SP. https://sindusconsp.com.br/wp-content/uploads/2026/07/INCC-M_FGV_press-release_Jul26.pdf · https://sindusconsp.com.br/wp-content/uploads/2026/08/INCC-M_FGV_press-release_Ago26.pdf
IBGE. PNAD Contínua, trimestre encerrado em julho de 2026, divulgada em 27/08/2026 (desocupação de 5,3%; 103,3 milhões de ocupados), conforme Canal Rural. https://www.canalrural.com.br/economia/desemprego-cai-para-53-o-menor-para-o-trimestre-terminado-em-julho/
Ministério do Trabalho e Emprego. Novo Caged, 1º semestre de 2026 (construção: 168.962 vagas; obras de infraestrutura: 64.793, +30,26%; construção de edifícios: 60.552, -2,19%), conforme CBIC, 30/07/2026 e 13/08/2026. https://cbic.org.br/construcao-cria-168-962-empregos-formais-no-primeiro-semestre-de-2026/ · https://cbic.org.br/infraestrutura-impulsiona-empregos-e-ajuda-a-sustentar-crescimento-da-construcao-no-brasil/
CNI. Sondagem Indústria da Construção divulgada em 25/08/2026 (atividade de julho: 47,2 pontos; emprego: 48,3 pontos; utilização da capacidade em agosto: 66%), conforme CBIC. https://cbic.org.br/cni-atividade-da-industria-da-construcao-desacelera-mas-emprego-no-setor-resiste/
CNI. Sondagem Indústria da Construção do 2º trimestre de 2026, divulgada em 23/07/2026 (falta ou alto custo de trabalhador qualificado citado por 28,6% das empresas, entre os principais problemas do setor), conforme CBIC. https://cbic.org.br/cni-condicoes-financeiras-da-industria-da-construcao-continuam-negativas-no-segundo-trimestre/