Finanças
Juros altos por mais tempo e as escolhas das empresas mais endividadas
· Gustavo B. Vargas
O Banco Central começou a reduzir a taxa básica de juros neste ano, mas o custo do dinheiro no Brasil continua alto e pesa de forma diferente sobre cada empresa. Nas que têm dívidas maiores, uma parte crescente do dinheiro gerado pela operação vai para o pagamento de juros e, por isso, sobra menos para investir, enquanto as empresas com pouca dívida atravessam o período com mais liberdade para decidir o ritmo dos seus projetos.
O texto trata desse efeito de forma geral, a partir de dados públicos do Banco Central e do IBGE, sem referência a empresas ou setores específicos.
O nível dos juros e da inflação
A Selic é a taxa básica de juros da economia, definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central, o Copom, e serve de referência para o custo dos empréstimos no país. Em 16 de setembro de 2026, o Copom reduziu a Selic de 14,00% para 13,75% ao ano, no quinto corte seguido. Antes do início dos cortes, a taxa havia ficado em 15,00% de junho de 2025 a março de 2026, e as projeções do mercado reunidas pelo Banco Central no Boletim Focus indicam 13,50% ao fim deste ano e 12,00% ao fim de 2027.
A inflação recuou nos últimos meses. O IPCA, índice oficial de preços medido pelo IBGE, teve queda de 0,32% em agosto e acumula 4,22% em doze meses. As projeções para os próximos anos, no entanto, continuam acima da meta de 3%, com 4,92% esperados para 2026 e 4,30% para 2027.
A diferença entre a taxa de juros e a inflação é o que se chama de juro real, isto é, quanto o dinheiro custa além da simples reposição dos preços. Com a Selic em 13,75% e a inflação esperada de 4,30% para 2027, o juro real fica perto de 9% ao ano, um patamar elevado, e é esse custo que mais pesa nas decisões das empresas sobre tomar crédito e investir.
Como os juros chegam à dívida das empresas
Boa parte das dívidas das empresas brasileiras é corrigida por taxas que acompanham a Selic, e por isso as mudanças nos juros chegam à conta da empresa em poucos meses. Quando a Selic sobe, a parcela de juros aumenta logo, e quando cai, o alívio também aparece, mas de forma gradual, porque cada corte é pequeno em relação ao nível total da taxa.
Um exemplo simples ajuda a visualizar. Uma empresa que gera R$ 100 por ano com a sua operação e deve R$ 300, a uma taxa equivalente à Selic mais 2 pontos, paga cerca de R$ 47 de juros por ano com a Selic em 13,75%, o que representa quase metade de tudo o que a operação produz. Se a Selic estivesse em 10%, os juros ficariam em torno de R$ 36. Já uma empresa com a mesma operação, mas com dívida de R$ 150, pagaria a metade desses valores e manteria a maior parte do caixa disponível.
É por isso que o mesmo nível de juros produz efeitos tão diferentes. O que distingue as empresas, nesse caso, é menos o setor em que atuam e mais o tamanho e o tipo da dívida que carregam.
A dívida e o investimento disputam o mesmo caixa
O juro alto afeta o investimento por dois caminhos. O primeiro é direto, já que o dinheiro usado para pagar juros deixa de estar disponível para comprar máquinas, ampliar uma fábrica ou abrir uma nova unidade. O segundo é menos visível, porque um projeto costuma ser aprovado quando o retorno esperado supera o custo do dinheiro, e quando esse custo sobe, projetos que fariam sentido com juros menores passam a ficar no limite.
Esse movimento aparece nos números do IBGE. A taxa de investimento da economia, que mede quanto o país aplica em máquinas, equipamentos e construções em relação ao PIB, ficou em 16,1% no segundo trimestre de 2026, ante 16,6% um ano antes. No acumulado de quatro trimestres, esse investimento ficou praticamente estável, com variação de -0,2%, embora tenha avançado 1,2% em relação ao primeiro trimestre deste ano.
O que o Banco Central observa
O Banco Central acompanha a situação financeira das empresas no Relatório de Estabilidade Financeira, publicado duas vezes por ano. Na edição de maio de 2026, o relatório descreve a capacidade de pagamento das empresas como desafiadora, em razão das condições financeiras mais apertadas, e registra piora nos setores mais endividados, ainda que em níveis considerados adequados. O mesmo documento observa que as empresas de maior porte mantiveram a capacidade de gerar caixa e aponta a possibilidade de piora nos próximos períodos, caso a atividade econômica perca ritmo.
A agenda da empresa e do conselho
Em períodos assim, a área financeira costuma concentrar a atenção em poucas informações. A primeira é quanto da dívida acompanha a Selic e quanto vence nos próximos dezoito meses, porque é essa parte que sente primeiro o custo atual e as condições de renovação com os bancos. A segunda é quanto da geração de caixa vai para juros em mais de um cenário de Selic, e não apenas no mais provável, já que muitos contratos de empréstimo estabelecem limites para essa relação. A terceira é o retorno mínimo exigido para aprovar novos projetos, que acompanha o custo do dinheiro.
No investimento, a prática mais comum entre as empresas endividadas é separar os projetos pela natureza e pelo prazo de retorno, mantendo os de manutenção e os que se pagam mais rápido e dividindo os de expansão em etapas, que podem ser aceleradas quando os juros cederem. Esse desenho evita tanto a paralisação completa, que costuma encarecer a retomada, quanto o compromisso com projetos longos financiados a juros altos.
Nas empresas em que o conselho acompanha a dívida e a carteira de projetos na mesma pauta, a trajetória dos juros entra no planejamento como uma premissa de revisão em conjunto com o ritmo dos investimentos.
Este texto é análise técnica e não constitui recomendação de investimento. O juro real próximo de 9% é cálculo do autor, com base na Selic de 13,75% e na projeção do Focus para o IPCA de 2027 (4,30%), e os valores do exemplo são ilustrativos. As opiniões são pessoais e não representam posição das organizações em que atuo.
Fontes
Banco Central do Brasil / Copom. Decisão de 16 de setembro de 2026 (Selic de 14,00% para 13,75% a.a.; 15,00% de junho de 2025 a março de 2026), conforme Agência Brasil, 16/09/2026. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-09/bc-reduz-juros-basicos-para-1375-ao-ano
Banco Central do Brasil. Boletim Focus de 21 de setembro de 2026 (IPCA 2026: 4,92%; 2027: 4,30%; Selic fim de 2026: 13,50%; fim de 2027: 12,00%), conforme Times Brasil/CNBC. https://timesbrasil.com.br/brasil/economia-brasileira/selic-13-50-boletim-focus-2026/
IBGE. IPCA de agosto de 2026 (-0,32%; 4,22% em 12 meses), divulgado em 11/09/2026, conforme Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-09/inflacao-oficial-de-agosto-fecha-em-032-menor-taxa-em-quatro-anos
IBGE. Contas Nacionais Trimestrais — PIB do 2º trimestre de 2026, divulgado em 01/09/2026 (taxa de investimento de 16,1% do PIB; FBCF +1,2% no trimestre e -0,2% em quatro trimestres). https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/47902-pib-cresce-0-5-no-segundo-trimestre-de-2026
Banco Central do Brasil. Relatório de Estabilidade Financeira, v. 25, n. 1, maio de 2026, seção sobre empresas não financeiras (pp. 28–29), dados de dezembro de 2025. https://www.bcb.gov.br/content/publicacoes/ref/202605/RELESTAB202605-refPub.pdf
Todas as fontes consultadas em 27 de setembro de 2026.