Gustavo B. Vargas

← Todos os artigos

Finanças

O saldo de tesouraria antecipa a crise que a demonstração de resultado não mostra

· Gustavo B. Vargas

Existe um número, calculável a partir do balanço que a empresa já publica, que sinaliza desequilíbrio financeiro antes de ele aparecer no resultado. Chama-se saldo de tesouraria. Poucas empresas o acompanham mês a mês.

O método que o produz nasceu no Brasil. Em agosto de 1975, Michel Fleuriet, então jovem professor assistente de finanças da HEC Paris, conduziu em Belo Horizonte um seminário de cinco semanas, a convite do centro de extensão da PUC Minas coordenado por Emerson de Almeida — que no ano seguinte fundaria a Fundação Dom Cabral. O material discutido ali virou, em 1978, o primeiro livro da instituição: "A Dinâmica Financeira das Empresas Brasileiras", escrito com Ricardo Kehdy e Georges Blanc. Ficou conhecido como Modelo Fleuriet, ou análise dinâmica do capital de giro, e segue ensinado e pesquisado no país.

Cinquenta anos depois, a pergunta que ele responde é a mesma que aparece em toda mesa de crédito. A empresa apura resultado. Por que o caixa não fecha?

O balanço arrumado por prazo esconde o que interessa

A contabilidade tradicional separa as contas por prazo: circulante e não circulante. Serve para medir liquidez em um instante. Serve pouco para entender uma operação em movimento.

Fleuriet propôs outra separação, por natureza. Contas cíclicas são as que se movem com a operação: estoques, contas a receber, fornecedores. Contas erráticas são as financeiras de curto prazo, como aplicações e empréstimos, que não dependem do ritmo operacional. Contas não cíclicas são as de longo prazo: imobilizado, dívida longa, patrimônio líquido.

Dessa reorganização saem três números.

Necessidade de capital de giro (NCG): ativos cíclicos menos passivos cíclicos. É o dinheiro que a operação retém enquanto gira.

Capital de giro (CDG): recursos de longo prazo menos ativos de longo prazo. É o quanto do financiamento estrutural sobra para bancar a operação.

Saldo de tesouraria (T): a diferença entre os dois. T = CDG − NCG. Quando T é negativo, a operação está sendo financiada por dívida de curto prazo.

A necessidade de capital de giro cresce com a receita, não com o lucro

A NCG é função do ciclo financeiro, o tempo entre pagar o fornecedor e receber do cliente. Na formulação do modelo, o ciclo financeiro equivale ao ciclo de produção somado ao prazo médio de recebimento e subtraído o prazo médio de pagamento.

Daí vem a consequência que a intuição contraria. Empresa que cresce mantendo prazos precisa de mais caixa, não de menos. Cada real adicional de receita imobiliza uma parcela previsível em estoque e em contas a receber.

Crescer sem desequilibrar exige que a geração de caixa e o financiamento de longo prazo avancem pelo menos no mesmo ritmo da NCG. Quando não avançam, a diferença é coberta com dívida curta.

O efeito tesoura tem sete causas e um sintoma só

O material da Fundação Dom Cabral sobre o modelo lista as causas do efeito tesoura: crescimento de vendas sem lucro retido compatível, alongamento do ciclo financeiro, margens reduzidas, distribuição excessiva de resultados, queda de vendas com acúmulo de estoques, investimentos sem financiamento adequado e inflação elevada.

São sete origens distintas. O sintoma é um só: variação do CDG menor que a variação da NCG, período após período, e um saldo de tesouraria crescentemente negativo.

A consequência é dependência cada vez maior de recursos de curto prazo. A empresa não quebra quando o T fica negativo. Quebra quando o banco decide não renovar.

É por isso que o indicador antecede. A demonstração de resultado registra o efeito depois que ele virou despesa financeira ou baixa de estoque. O saldo de tesouraria registra a causa enquanto ela ainda é reversível.

Em 2026, o preço de errar subiu

Dois dados delimitam o custo do erro hoje. Em julho, a taxa média de juros das operações de capital de giro com prazo superior a 365 dias, em recursos livres, estava em 23,55% ao ano, ante 21,58% em junho, segundo o Banco Central. A Selic naquele mês era de 14,25% ao ano. O diferencial passa de nove pontos percentuais. A Selic foi reduzida para 14,00% em agosto; o diferencial permanece na mesma ordem.

Um exemplo ilustra a ordem de grandeza. Uma NCG de R$ 20 milhões financiada integralmente a essa taxa custa cerca de R$ 4,7 milhões por ano. É margem operacional consumida antes de qualquer discussão sobre eficiência.

No mesmo mês, a inadimplência das empresas bateu recorde. Foram 9,2 milhões de CNPJs negativados e R$ 238,6 bilhões em dívidas, com média de R$ 25.983,88 por empresa, conforme a Serasa Experian. Micro e pequenas respondem por 8,7 milhões desse total.

Corrigir um saldo de tesouraria negativo passa por quatro alavancas

Diagnóstico feito, restam poucas saídas, e elas têm velocidades diferentes.

A primeira é encurtar o ciclo financeiro: reduzir prazo de recebimento, girar estoque mais rápido, alongar prazo de pagamento. É a alavanca de maior efeito e a mais lenta, porque depende de renegociar com clientes e fornecedores.

A segunda é aumentar o capital de giro por retenção de resultado. Depende de margem e de decisão de distribuição, que é matéria de conselho e de acordo de acionistas, não de tesouraria.

A terceira é trocar dívida curta por dívida longa. É a única rápida, e a que os bancos concedem com base em projeção, não em histórico.

A quarta é desacelerar o crescimento até que o financiamento acompanhe. É a menos popular e, em alguns casos, a única disponível.

Nenhuma delas funciona bem sob pressão. Todas funcionam quando decididas com dois ou três trimestres de antecedência, que é exatamente o prazo que o acompanhamento do saldo de tesouraria compra.

Três linhas no fechamento resolvem o acompanhamento

Não é preciso sistema novo. É preciso incluir três medidas no fechamento mensal.

A primeira é a NCG em reais e em dias de receita. A medida em dias revela deterioração antes da medida em reais, porque neutraliza o efeito do crescimento.

A segunda é a variação do CDG contra a variação da NCG em série trimestral, lado a lado, com três a quatro anos de histórico. Doze meses raramente bastam: a tesoura se abre devagar, e uma janela curta mostra duas retas quase paralelas. O gráfico dessas duas curvas é, literalmente, a tesoura.

A terceira é o saldo de tesouraria em reais e como percentual da receita, acompanhado do cronograma de vencimento das linhas de curto prazo que o financiam.

O balanço de qualquer empresa contém os três. O cálculo leva menos de uma hora na primeira vez e minutos nas seguintes. Quem acompanha isso mensalmente chega à mesa do banco com projeção. Quem não acompanha chega com pedido.

Fontes

Nota sobre as fontes: seminário de agosto de 1975, conduzido a convite do centro de extensão da PUC Minas coordenado por Emerson de Almeida, e primeira publicação em 1978 — FLEURIET, M.; KEHDY, R.; BLANC, G. "A Dinâmica Financeira das Empresas Brasileiras", Fundação Dom Cabral, 1978; histórico e conceitos conforme o material do modelo mantido pelo autor (modelo-fleuriet.com) e pela FDC (modelo-fleuriet.fdc.org.br), inclusive as sete causas do efeito tesoura. A Fundação Dom Cabral foi fundada em agosto de 1976 (fdc.org.br/nossa-historia). Taxa média de juros de capital de giro com prazo superior a 365 dias, recursos livres, pessoas jurídicas: Banco Central do Brasil, série SGS 20723 (julho de 2026: 23,55%; junho de 2026: 21,58%). Selic: decisões do Copom de 17/06/2026 (14,25%) e 05/08/2026 (14,00%). Inadimplência das empresas em julho de 2026: Serasa Experian, indicador divulgado em 01/09/2026. O exemplo de NCG de R$ 20 milhões é ilustrativo, não corresponde a nenhuma empresa específica.