Gustavo B. Vargas

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Finanças

Terras raras: o Brasil tem a jazida, falta a indústria

· Gustavo B. Vargas

Poucos paradoxos econômicos são tão interessantes quanto o das terras raras no Brasil. O País detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, 21 milhões de toneladas, cerca de um quarto do total global, mas ainda responde por 0,5% da produção mundial e permanece praticamente ausente das etapas de maior valor da cadeia. O desafio, portanto, não é geológico, mas industrial: transformar base mineral em capacidade produtiva competitiva em escala comercial.

As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos presentes em tecnologias centrais da economia contemporânea, como veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores, equipamentos médicos, sistemas de defesa e eletrônicos de consumo. Embora o nome sugira escassez, a dificuldade real está na separação individual desses elementos, que possuem características químicas muito semelhantes e exigem processos sofisticados para atingir pureza industrial.

A cadeia produtiva se organiza em cinco etapas principais: mineração, beneficiamento, separação química, redução metálica e fabricação do produto final, especialmente os ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro, os NdFeB. É justamente nas fases intermediárias e finais que se concentra a maior parcela do valor agregado, enquanto a participação brasileira continua restrita à etapa inicial.

A separação química é a mais complexa. Ela envolve estágios de extração por solventes, controle rigoroso de pH e temperatura e gestão de resíduos que podem conter tório e urânio. O Brasil já domina essa rota em ambiente laboratorial e em escala piloto, com desenvolvimento acumulado em centros de pesquisa. O desafio agora é converter esse conhecimento em operação industrial, com capital, engenharia de processo e escala comercial.

O mesmo se aplica à redução metálica, etapa em que os óxidos separados são transformados em metais e ligas usados na fabricação dos ímãs. Universidades federais e institutos de pesquisa já demonstraram essa fase em laboratório, e iniciativas como as do CIT Senai ITR/FIEMG, por meio do LabFabITR, avançam na direção de plantas semi-industriais. Trata-se de um movimento relevante, mas ainda insuficiente para alterar de forma estrutural a posição do país na cadeia global.

Do lado da demanda, o cenário é favorável. O mercado global de ímãs permanentes foi estimado em US$ 32 bilhões em 2025 e pode chegar a US$ 66 bilhões até 2034, segundo a Fortune Business Insight. A demanda mundial por terras raras deve ultrapassar 120 mil toneladas em 2030 e alcançar 175 mil em 2050, de acordo com a Agência Internacional de Energia. Esses números refletem a centralidade desses materiais na transição energética e em aplicações industriais de alta intensidade tecnológica.

A competição internacional também se intensificou. A Agência Internacional de Energia estima que serão necessários cerca de US$ 60 bilhões nos próximos dez anos para estruturar uma cadeia alternativa fora da China. Estados Unidos, União Europeia, Japão e Coreia do Sul já se movimentam com subsídios públicos, contratos de longo prazo e mecanismos de proteção de preço. A janela para entrada de novos fornecedores existe, mas é limitada e exige decisão estratégica.

A matemática do setor é direta e desfavorável no caso do Brasil. O concentrado mineral exportado in natura, tipicamente um carbonato misto de terras raras, é vendido a preços da ordem de poucos milhares de dólares por tonelada. Os óxidos individuais separados, com alta pureza, valem entre dez e cinquenta vezes mais, dependendo do elemento. As ligas metálicas e os ímãs sinterizados de NdFeB, no topo da cadeia, multiplicam novamente esse valor. Em termos práticos, cada tonelada de minério bruto exportada representa renúncia a algo entre 80% e 95% do valor que essa mesma matéria-prima geraria se fosse beneficiada até o produto final.

É uma equação conhecida da economia mineral brasileira, repetida em ciclos sucessivos: açúcar, ouro, café, minério de ferro e, mais recentemente, soja e petróleo. O ponto novo, no caso das terras raras, é que a etapa de maior valor agregado não está na fase agrícola ou na mineração propriamente dita, mas sim em processos físico-químicos complexos que exigem domínio tecnológico em escala industrial. Não basta extrair. É preciso saber separar quimicamente, reduzir metalurgicamente e sinterizar.

O Brasil acumula resultados consistentes em escala de bancada e em planta-piloto para todas as etapas críticas da cadeia. O problema, portanto, não é técnico-científico e sim industrial. Falta o salto de escala que transforma processo dominado em produto vendável, com regularidade de entrega, especificação consistente, custo competitivo e licenciamento ambiental adequado.

Esse salto tem três componentes inseparáveis. O primeiro é capital: uma planta comercial de separação química exige investimento na casa das centenas de milhões de reais, com prazo de maturação mais longo até o regime pleno de operação. O segundo é tecnologia operacional que, diferente da tecnologia de processo, é o conhecimento acumulado em rodar a planta com eficiência, ajustar parâmetros, controlar perdas, gerir resíduos radioativos de baixa atividade. O terceiro é a demanda contratada: pisos de preço que protejam o investidor da volatilidade característica do setor é muito importante.

Quando esses três elementos não estão presentes — capital, tecnologia e demanda contratada —, a cadeia trava. É exatamente o que se vê na concorrência internacional: Estados Unidos, União Europeia, Japão e Coreia do Sul têm avançado com bilhões em subsídios públicos, contratos de longo prazo com pisos de preço garantidos e acordos de transferência tecnológica condicionados à industrialização local.

O Brasil já foi líder global em terras raras. Em 1915 era o maior fornecedor mundial de monazita, e no início da década de 1950 dominava a tecnologia de separação, naquela época muito básica e notadamente para separar a monazita de areia pesada e não dos elementos individuais. A janela que se abre agora é uma grande oportunidade para o país capturar parte relevante de uma cadeia industrial que pode movimentar dezenas de bilhões de dólares ao ano. Resta saber se iremos conseguir ter clareza da tese, disciplina de capital e coordenação institucional para avançarmos nas competências industriais, logísticas e de engenharia.

Fontes

Nota sobre as fontes: os dados de reservas e produção são do USGS, Mineral Commodity Summaries 2026 (reservas do Brasil de 21 milhões de toneladas, total mundial superior a 85 milhões; produção brasileira de 2 mil das 390 mil toneladas produzidas em 2025). A Agência Nacional de Mineração adota classificação mais restritiva, alinhada ao padrão CBRR/CRIRSCO, e estima as reservas brasileiras em 11,4 milhões de toneladas, 15% do total mundial. As duas bases divergem no volume, mas convergem na posição: o Brasil é o segundo maior detentor de reservas do mundo, atrás apenas da China.